Capítulo 45 de As 48 Leis do Poder
Sobre as pessoas
Todo mundo aceita a necessidade de mudança no abstrato. No dia a dia as pessoas são criaturas de hábito, e inovação demais é trauma.
A ideia
O exemplo de abertura é Thomas Cromwell, que quebrou o poder e a riqueza da Igreja na Inglaterra e assentou as bases do protestantismo — num tempo implacavelmente curto. Ele sabia que causaria dor e ressentimento, e apostou que isso passaria em poucos anos. Além disso, ao se identificar com a mudança, tornaria o rei dependente dele.
O que ele não previu foi o efeito de bola de bilhar batida forte demais: as reformas produziram rebotes que ele não controlava. Greene resume o mecanismo numa frase que vale para qualquer organização — quem inicia reformas fortes costuma virar o bode expiatório de todo descontentamento que vier depois, inclusive o que não tem nada a ver com elas. Ver Bode Expiatório.
Do outro lado está Mao, num país com apego profundo ao passado. Em vez de lutar contra isso, virou o passado a favor: associou os comunistas às figuras românticas da história chinesa, e leu a disputa entre Estados Unidos, União Soviética e China dentro da moldura da Guerra dos Três Reinos, colocando a si mesmo no papel de Chuko Liang. Depois do desastre do Grande Salto Adiante — a tentativa de forçar a modernização de uma vez —, ele nunca mais repetiu o erro: mudança radical passou a vir vestida com roupa antiga.
A imagem do capítulo é o gato. Criatura de hábito, ama o calor do que lhe é familiar; perturbe a rotina dele e ele fica ingovernável. Se a mudança for necessária, mantenha o cheiro do passado vivo.
A frase que vale guardar
As 48 Leis do Poder · Lei 45
Quem deseja ou tenta reformar o governo de um Estado, e quer que a reforma seja aceita, precisa ao menos manter a aparência das formas antigas — de modo que ao povo pareça não ter havido mudança nas instituições, ainda que de fato elas sejam inteiramente outras.
Maquiavel. A frase separa duas coisas que costumam andar juntas por descuido: a mudança e o anúncio da mudança. Só a primeira é necessária. A segunda é opcional, e é ela que custa caro.
No dia a dia
A cena é conhecida: o gestor novo chega e, no primeiro mês, troca a ferramenta, o formato da reunião, o modelo de relatório e o horário do time.
Cada mudança pode estar certa isoladamente. Juntas, elas produzem o efeito Cromwell: a partir dali, tudo o que der errado — inclusive o que já estava errado antes — tem um responsável óbvio. E o time gasta a energia que teria de gastar trabalhando aprendendo a trabalhar de novo.
O caminho é o de Mao, e é quase constrangedor de tão simples: mantenha as formas, mude o conteúdo. A reunião de segunda continua sendo a reunião de segunda, e o que se discute nela é outro. O relatório mantém o nome e as duas primeiras linhas de sempre, e o resto muda. Você fala em continuidade — “isso é o que vocês já faziam, só que sem a parte manual” — mesmo quando a mudança é grande.
O ganho não é de imagem. É que ninguém precisa reaprender tudo ao mesmo tempo, e a resistência que você economiza volta como execução.
Quando não vale
O inverso está no próprio capítulo e é bem colocado: o passado é um cadáver para se usar como convier. Se o passado recente foi doloroso, associar-se a ele é suicídio.
Quando Napoleão chegou ao poder, a Revolução ainda estava fresca na cabeça de todos. Se a corte dele lembrasse a de Luís XVI e Maria Antonieta, os cortesãos teriam passado o tempo todo preocupados com o próprio pescoço. Ele montou uma corte sóbria e sem ostentação, de um homem que valorizava trabalho e virtudes militares — e a forma nova pareceu apropriada e tranquilizadora.
Mas atenção à regra que vem junto: se você romper com o passado, encha o vazio imediatamente. Espaço vazio dá mais medo do que passado feio. Ritual novo, forma nova, nome novo — alguma coisa precisa ocupar o lugar do que saiu.