Capítulo 42 de As 48 Leis do Poder

Com quem você anda

O problema de um grupo costuma ter uma origem só. Enquanto essa origem tiver espaço para operar, os outros vão sendo contaminados.

A ideia

Os atenienses tinham o ostracismo, e Greene mostra o que eles estavam reconhecendo com aquilo. Não era só crime: era o comportamento antissocial disfarçado de outra coisa — a superioridade moral que impõe silenciosamente os próprios padrões, a ambição às custas do bem comum, a exibição de superioridade, a intriga discreta, a implicância crônica. Uns rachavam a cidade em facções; outros corroíam o espírito democrático fazendo o cidadão comum se sentir inferior e invejoso.

E a solução deles é o ponto do capítulo: não tentaram reeducar, absorver nem punir com violência. Identificado o desagregador, expulsavam.

O outro exemplo é Bonifácio VIII, que queria Florença. Sabia que a cidade se sustentava numa espinha dorsal: Dante. Ameaçou com uma mão, ofereceu o ramo de oliveira com a outra, atraiu Dante a Roma — e o segurou lá o tempo que precisou. Sem a espinha, o rebanho se dispersou sozinho.

A lição que Greene tira é operacional: não gaste energia atacando o que parece um inimigo de muitas cabeças. Encontre a única cabeça que importa — a pessoa com vontade, ou inteligência, ou, mais importante, carisma. O isolamento dela pode ser físico, político ou psicológico.

A frase que vale guardar

As 48 Leis do Poder · Lei 42

Para abater um cavaleiro, atire primeiro no cavalo. Para pegar um bando de salteadores, capture primeiro o líder.

Tu Fu, poeta chinês da dinastia Tang. O que a frase carrega, e que o resto do capítulo confirma, é economia: a versão precisa custa menos dano do que a versão ampla. Quem não identifica a origem acaba punindo o grupo inteiro — e é aí que se perde gente que não tinha nada a ver.

No dia a dia

Todo mundo já viu o time que “está desmotivado”.

Faz-se pesquisa de clima, muda-se o processo, cria-se ritual novo, e nada muda — porque a desmotivação não é do time. Uma pessoa comenta em todo canto que a liderança não sabe o que faz, que aquilo não vai dar certo, que na empresa anterior era melhor. Ninguém confronta, porque cada comentário isolado é pequeno. O efeito não é.

Antes de agir, porém, é obrigatório separar duas figuras que se parecem e não são a mesma: quem levanta problema e quem corrói. O teste é a direção da conversa. Quem levanta problema fala com quem pode resolver. Quem corrói fala com quem não pode — e evita justamente a sala onde a coisa se decidiria.

Confundir as duas é o erro mais caro que esta lei induz, porque o segundo tipo some sozinho quando isolado, e o primeiro é o único aviso que a empresa tinha.

Quando não vale

O inverso é Maquiavel, citado no capítulo: qualquer dano que você cause a alguém deve ser feito de tal forma que você não precise temer a vingança. Aplicada de posição fraca, esta lei fabrica um inimigo com motivo.

O exemplo é ótimo. Andrew Johnson, sucessor de Lincoln, via Ulysses Grant como um problema no próprio governo e o isolou, de olho em empurrá-lo para fora. Só que Grant era um general enorme: enfurecido, montou base de apoio no partido republicano e virou o presidente seguinte.

Às vezes, conclui Greene, é melhor manter a pessoa por perto, onde ela faz menos estrago e pode ser observada, do que criar um inimigo com tempo livre.