Capítulo 10 de As 48 Leis do Poder

Com quem você anda

Estados emocionais são tão contagiosos quanto doenças. Há pessoas que não tiveram azar: elas produzem o próprio desastre, e produzem o seu junto.

A ideia

Greene faz uma separação que costuma ser ignorada quando esta lei é citada por aí. Quem foi derrubado por circunstâncias fora do próprio controle merece toda a ajuda e toda a simpatia. A lei não é sobre essas pessoas.

Ela é sobre outro tipo: quem atrai a desgraça pelos próprios atos e pelo efeito perturbador que exerce sobre quem está perto. O detalhe cruel é que essa pessoa quase sempre se apresenta como vítima — o que torna difícil ver, no começo, que ela é a origem do próprio sofrimento. Quando você percebe, já se contaminou.

Os sinais que o livro lista são todos de padrão, não de episódio: um passado turbulento, uma fileira longa de relacionamentos rompidos, carreiras instáveis, e uma personalidade forte o bastante para tomar conta de você. A regra que Greene tira disso é a parte aproveitável da lei — julgue as pessoas pelos efeitos que elas produzem no mundo, não pelas razões que elas dão para os próprios problemas. Ver Efeito e Intenção.

E o contágio funciona nos dois sentidos, o que quase ninguém lembra ao citar esta lei. Quem é triste por natureza não passa de um certo ponto sozinho; quem é isolado precisa se forçar a conviver com o gregário. A pior escolha é se associar a quem tem exatamente os seus defeitos — isso reforça tudo o que já trava o seu caminho.

A frase que vale guardar

As 48 Leis do Poder · Lei 10

Não morra da infelicidade alheia.

Gracián de novo, e a frase é dura de propósito. Ela não diz para não ajudar. Diz que existe um ponto em que ajudar deixou de ser ajuda e virou substituição: você assumiu o problema, e o problema continua exatamente o mesmo, só que agora com duas pessoas dentro dele.

No dia a dia

Existe aquele colega. Todo chefe que ele teve foi injusto. Todo cliente era impossível. Todo projeto acabou em briga que não foi culpa dele. Você começa ouvindo, depois defendendo, depois explicando as ausências dele para os outros — e um dia percebe que a reputação dele passou a ser lida junto com a sua.

O teste é o que Greene descreve, e dá para fazer numa folha de papel: liste os últimos cinco conflitos da pessoa. Se a única coisa em comum entre eles é ela, você não está diante de uma sequência de azares. Está diante de um padrão.

O que fazer não é crueldade, é dosagem. Continue cordial, mantenha a porta aberta — e pare de investir tempo, energia e reputação. Não indique essa pessoa para outros. Não a coloque em projetos seus. Ver Filtro de Entrada.

O lado positivo pede a mesma intencionalidade e quase nunca é praticado. Se você quer ser mais generoso, ande com gente generosa. Se quer ser mais animado, ande com gente animada. A convivência faz isso melhor do que a força de vontade.

Não tem inverso

É a única lei do livro que Greene declara sem inverso: nada se ganha se associando a quem contagia com a própria miséria.

Vale marcar o limite honesto dela. É uma lei sobre associação, não sobre ética. Ela não autoriza abandonar um amigo que está passando por uma fase ruim — a linha que separa os dois casos é justamente a diferença entre estar numa fase ruim e ser a fase ruim.

Conceitos deste capítulo